Trechos [+18]

Pedi pra ele me pegar no colo. Primeiro de tudo porque o porte dele permitia, segundo porque eu sempre tive esse fetiche. Atendeu o meu pedido com um sorriso sacana, de lado. Pareceu muito fácil pra ele me movimentar e encaixar nossos corpos de forma que não houvesse espaço entre nós. Eu também sorri. Passei os braços em volta de seu pescoço, encostei o queixo em seu ombro e senti a barba dele passando devagar na minha bochecha. Nessa hora eu senti o que nunca consigo descrever, algo como se o meu rosto e mãos estivessem em chamas, senti que tinha ficado vermelha e agradeci por ele não poder me ver agora. Simultaneamente, os movimentos começaram.

Espalmei as mãos na parede atrás dele, usando-a de apoio, mas antes que eu pudesse me mexer ou pensar, ele trocou as peças. Fez com que as minhas costas encostassem na parede gelada, pressionado o corpo dele contra o meu. Eu simplesmente não conseguia respirar, mas isso não era nem um pouco ruim. Uma das mãos dele passeava pela minha coxa e a outra manteve meus braços imóveis acima da minha cabeça. Eu sentia cada movimento. Por centímetro. Concedeu, de repente, liberdade aos meus braços e me agarrou muito forte pelas coxas, agora com as duas mãos. No tranco (não existe outra palavra que defina melhor a sensação do impacto), me segurei nos cabelos dele, puxando seu pescoço pra trás. O gemido entredentes foi inevitável. Esses sons que a gente lembra por um longo período de tempo. Então, consegui respirar…

Entreguei um milhão de beijos. Comecei pelo pescoço, mordendo como se eu o pudesse comer. Subi até a orelha e podia sentir o corpo dele contrair-se e arrepiar, principalmente quando eu lambia devagar o seu pescoço e soprava bem de perto a pele úmida. Como agradecimento ele intensificava os movimentos e força, me agradava muito a forma como ele agradecia. Enfiou os dedos embaixo dos meu cabelos, puxando minha cabeça um pouco para o lado. Eu vou soltar você, ele sussurrou. Deixou meu corpo escorregar um pouco pra baixo, se afastou devagar, até que meus pés tocassem o chão e me deu um beijo mais lento do que os anteriores, mas com um sabor e um desejo inesquecíveis…

Você é o carma de alguém

Acima da sua compreensão, além do que você enxerga, em volta de você: alguém espera suas reações. Uma pessoa que você já tocou ou não, alguém com quem você já passou muito tempo ou nunca viu. Uma pessoa gostaria de ter você por perto. Alguém espera por você. Tem essa pessoa por aí, no expediente pesado de segunda à sexta querendo voltar pra casa, querendo que você esteja. Existe, apesar de todas as conspirações, alguém que gostaria de ficar. Você é casa pra alguém sem saber, é saudade com nome e cheiro. Você pode ter sido um capítulo inteiro na vida de um escritor. Um desencontro. Você é o assunto mal resolvido, uma vontade viva ainda, você é a escolha de alguém.

Sem acreditar, sem querer você é o carma de alguém. A lei do eterno retorno aplica-se a você, assim como a Tereza e Tomas, Sabina e Franz. Ninguém escapa. Pode ser que seja eu. Você pode ser meu carma. Talvez eu sempre volte com a minha mala pesadíssima. Talvez a gente esteja longe demais agora, mas se você puder, tenta vir. Se você acreditar em qualquer coisa além do que podemos ver e tocar, tenta vir. Se a gente soubesse que nenhuma das coisas está sob nosso controle … É nossa tendência à complicação, nossa vontade de emaranhar o barbante, esticá-lo, cortá-lo e depois fazer sacrifícios absurdos pra poder remendar. A lógica humana que tudo sabe, tudo compreende. A desculpa do “es muss sein” pra tudo, pra qualquer um. Mas você é, de verdade, o “es muss sein” de alguém. Continue.

Rito

Eu queria um rito de corpo presente, sem testemunhas. Um rito de despedida de nós. Eu me despedindo. Algo mais significante do que quebrar uma garrafa, apagar fotos e mensagens. Uma transição mais importante do que trocar de faixa de Espumas Ao Vento para Sonhos. Uma marquinha minha na sua existência, eu impressa em você em lembrança ou digital.

Precisava de um rito não interno, diferente dos que eu tenho feito diariamente repetindo um “não” mentalmente sempre que você se intromete nos meus pensamentos. Você é um intrometido. Tinha que ser maior. Imenso. Poderia ser o atrito da pele fazendo sons, o quente da língua em mim, um som teu no meu ouvido pra eu saber que não mudou. Pra eu varrer você de mim , esquecer todos os seus detalhes, um rito de fim. Entregar, então, carinho pra quem chega sem me preocupar em guardar um pouco pra você.

E se eu aparecesse sem avisar, sem precisar dizer nada e você entendesse? E se você não questionasse? E se eu pudesse me despedir? Se eu fosse com a pele crua, fria de um banho recém terminado, vestindo só um batom vermelho pra não me pôr nua diante dos seus olhos e, então, me despedisse de você me olhando? Pra eu poder dizer que é a última vez, mesmo acreditando que últimas vezes não existem. Talvez eu não precise, mas eu queria.

 

Mapas e desejos

Desejo que se conheçam numa livraria, num café ou num bar – aquele que você adora. Que se esbarrem no mercado pra parecer coisa do destino. Que ela tenha um sorriso estonteante, que seja educada. Desejo que a voz dela agrade imensamente seus ouvidos, que você ame ouvi-la. Espero que tenham rios de assunto. Discutam filmes, músicas, viagens e besteiras. Que ela faça você desacelerar. Faça você rir. Que seja inteligente, independente e carinhosa. Que tenha paciência com você, tenho certeza que vai conseguir tempo pra ela. Tomara que ela fale com respeito da sua família e do seu trabalho. Que ela apoie e impulsione todos os seus projetos, te dê muita força e acredite em você. Desejo que ela tenha um terço da admiração que eu tive um dia por quem você é. Que ela tenha um bom coração e ame os animais.

Que seja generosa e justa, mas um pouco implicante pra você achar graça. Desejo que ela te deixe sozinho um pouco. Que torça pro seu time e vá aos jogos com você. Tomara que ela saiba cozinhar, pra vocês passarem horas discutindo sobre o ponto certo da carne no churrasco. Que ela faça você querer planejar algo a longo prazo e se meta nos seus planos. Que ela vire rotina pra você. Que a companhia dela seja inigualável. Que ela te acompanhe na cerveja, no vinho, no café. Que ela trabalhe tanto quanto você e mesmo assim mantenha seu nome na agenda dela. Desejo que ela te ame também. Que ela seja seu “es muss sein!“.

Mas quando estiverem sozinhos e as suas mãos tocarem a pele dela, eu quero você sinta a diferença. Quando ela beijar sua boca delicadamente, desejo que sinta falta das minhas mordidas e da minha fome de você. Vai passar pela sua cabeça a lembrança do meu gosto e dos meus sons. Ela não tem meu cheiro. Vai sentir falta das minhas mãos puxando seu cabelo pra trás, enquanto ela passa as unhas na suas costas. Vai se perguntar porquê ela não dá tanta atenção ao seu pescoço e fica meio perdida no seu corpo. Por que não entrega seu mapa estelar pra ela? Por que o cabelo dela não enrosca nunca na sua barba?

Desejo que você feche os olhos pra lembrar do meu rosto. Não que você feche os olhos e lembre. Quero que feche os olhos exclusivamente pra mim. Que você lembre das minhas reações a cada investida sabendo que as coisas apenas aconteciam com a gente. Por que ela usa de tanto pudor com você? Por que você não solta todo o peso do seu corpo sobre ela quando terminam? Era eu quem gostava disso? Que vocês tenham orgasmos incontáveis, mas nunca juntos. E que você nunca esteja cansado o suficiente pra dormir depois do fim. Ela vai achar lindo o fato de você observá-la enquanto dorme, espalhada em você, mas nunca vai saber que comigo você dormia.

A vida é um sopro

Acordei com a nuca suada. Tinha feito um coque no alto da cabeça que mais parecia um emaranhado de cachos amassados. Os fios soltos grudaram na umidade salgada do meu pescoço e as olheiras, muito bem marcadas em volta dos olhos, denunciavam a inexistência de um relógio biológico em mim e as noites em claro. Me estiquei. Tinha dormido um sono pesado, no sentido ruim. Uma frase na cabeça, martelando: a vida é um sopro. Cobri a cabeça e me encolhi de novo. Fiquei pensando sobre a morte. Talvez eu tenha tido um pesadelo nessas poucas horas de sono pós-plantão. Foram dois óbitos duas despedidas na última madrugada, de dois pacientes pessoas que não conheço e que tinham suas vidas como temos as nossas nesse exato momento, sobre as quais não posso dissertar. Eu sei um pouco sobre essas dores, mas estas não são minhas.

A morte é irrefutável, grandiosamente dolorosa pra quem permanece (pra quem vai de mãos dadas com ela, não sei dizer) e nós a transformamos em três vias de papel colorido e um carimbo médico. Isso é tudo. Eu sei, é o ciclo natural, mas quando presenciamos as partidas o coração aperta, a cabeça pesa e, por um momento a gente enxerga o quanto não valorizamos nossa própria vida. Dá pra ver claramente o quanto somos imprudentes conosco. O amontoado de coisas que deixamos passar, feito um tanto de roupa suja largado no cesto. Dá pra ouvir na nossa própria voz as milhares de coisas que não dissemos. Milhares de coisas. A morte faz a gente pensar no tempo que desperdiçamos tentando encaixe nos padrões impostos, nas convenções absurdas das relações pós-modernas, na importância que damos ao que é material.

O que são todas as coisas diante do fim? Nada. Nada é carregado, títulos e bens não mudam o fato de que não existiremos um dia. De repente, as outras dores se tornam relativamente pequenas diante dessa. De repente a caixa com contas pra pagar é só uma caixa cheia de papéis, o diploma é só o diploma e o restante das coisas são nada também. É claro que não pensamos assim todos os dias, mas, vez ou outra vale a reflexão. Vale um ajuste nas prioridades. Ás vezes, a morte precisa passar diante de nossos olhos devagar, gemente e explicativa e nos mostrar nossa insignificância em frente a vida. Contamos com um tempo que não é nosso, que não temos, e vivemos postergando as coisas importantes, trocando essas por outras. As ligações que deixamos de fazer e os abraços que a gente não dá, tudo o que é adiado…

Parece mais do que justo não querer ser morno nessa vida, parece justo e lindo ter a derme feita de coração. Rir e chorar exageradamente, sempre que possível. Brigar e pedir perdão hoje mesmo. Não dá tempo de ficar brigado até o fim do expediente. Não dá pra deixar pra amanhã, entende? Não dá pra esperar até semana que vem pra gente se ver. Só tem o hoje e a urgência é a vida em si. E quem vive assim deve dar o direito do outro de viver como quiser, mas pode se dar o direito, também, de exigir na vida só quem faz questão de estar. Querer quem deixa saudade pela presença e pode ser descrito com fenômenos naturais arrasadores. As outras formas soam infelizes pra mim (o que não quer dizer que sejam, porque, afinal o que eu sou?). Mas quando alguém ousar dizer: você é intenso demais ou você é emotivo demais, você se entrega demais a única réplica possível será: a vida é um sopro.

As pessoas que amamos são feitas de coisas pequenas

Falo por mim, mas penso ter cúmplices por aí que compartilham da minha tese baseada em nada. Ninguém ama o outro por causa do terno importado, ajustado perfeitamente ao corpo. Ama-se o corpo dentro do terno. O desenho das mãos, as pintinhas escondidas, o tom da pele. Ninguém ama alguém porque é gordo ou porque é magro. A gente ama caber no outro e tem coisas humanas que o corpo não comporta. Não tem parâmetro no amor. Você não ama alguém por causa das obras que leu ou das viagens que fez… você ama o que a essência do ser amado fez com essas experiências.

Sabe, ainda bem que ninguém escolhe quem vai causar a taquicardia e a pupila dilatada. O amor é a oportunidade de amar algo que você não escolheu, e não existe a possibilidade disso não ser maravilhoso. Ninguém manda nisso, você não tem escolha. E aí acontece. Aparece aquela mulher que não gosta muito das suas piadas e fuma de vez em quando, e você acaba querendo fazê-la rir, não se importando com o cheiro horrível que fica na roupa dela depois de uns tragos num cigarro barato. E quando você vê ela está com a sua camiseta, passando café pra vocês num domingo de manhã. A mágica aconteceu. É claro que tem um milhão de outras coisas entre um ponto e outro mas, o que quero dizer é: você não a escolheria.

O amor não está nem aí pra suas escolhas. Nem para os seus planos. Ainda bem. Você não deixaria um colega do oitavo ano entrar na sua vida agora. Não faz sentido. Tem o trabalho que exige demais de você, a faculdade que, bem, sabemos o que a faculdade faz com o ser humano. E aí estão vocês, tentando se encaixar um na vida do outro, porque de certa forma acreditam que o esforço pode valer a pena. O amor faz a gente tentar. O amor é a oportunidade. Pode não valer a pena. Pode ter um joelho ralado, um drama mexicano, corações arrasados com as quatro câmaras cardíacas devastadas pós-término. Pode ser uma grande merda. Ou pode ser maravilhoso. Ninguém sabe.

Ás vezes, muitas vezes -sejamos honestos – dá vontade de não apostar as fichas. A gente espera reciprocidade no amor, mas o outro não tem obrigação de amar de volta, desencontros acontecem, desentendimentos também e ok. As pessoas, e nós (que também somos pessoas, mas me refiro aos cúmplices) nos perdemos, erramos. Existem as preferências, mas, o conjunto de coisas que fazem a sua pessoa se transformar na pessoa mais amada do mundo são as coisas minúsculas . Os sons que ele faz, o ritmo da respiração pesada enquanto dorme e você pode fazer cafuné e olhá-lo.

A gente ama as coisas que não passam em telões, o que faz o outro amado são as coisas entre nós. Os dedos se encaixando, o jeito que ela acaricia você enquanto dirige, o jeito que ele dança quando vocês estão sozinhos, ela sussurrando uma parte da música que você ama num inglês (incompreensível) que você acha lindo, o cheiro de vocês dois juntos nos lençóis. E quando pensamos em tudo isso é que podemos perceber a grandiosidade que mora no amor: as pequenas coisas que constroem as pessoas que amamos. Sempre dá pra apostar mais uma ficha.

O melhor da vida – Marcelo Jeneci

Os avós não sabem de nada

O meu avô não sabe nada de signos, mapa astral, Vênus em áries. Não sabe nada sobre feminismo, gordofobia, relacionamento abusivo. Meu avô nem imagina que existe algo como o Tinder (ainda bem!). Não sabe que eu escrevo qualquer coisa nesse blog, muito menos sobre ele. O que ele sabe é que eu amo o feijão branco que ele faz, e o faz pra mim quando vou. E eu sei que ele toma, meio que escondido, una (errei aqui na digitação, voltei pra corrigir, mas quis deixar) dose de cachaça depois do almoço de domingo. Meu avô sabe que fiquei doente aos quatro porque queria uma máquina de sorvete da Eliana. Eu sei que ele comprou. Sei que ele veio de Juazeiro, é arretado, trabalhador e isso é o que preciso saber.

Foi aniversário dele, setenta e quatro anos. Como há muito, muito, muito tempo não fazia, participei desse almoço de família para a comemoração, dessa família que é minha. Sentei ao lado dele. Uma musiquinha ruim que a gente (da nossa família) acha boa tocando no rádio, uma carne-não-de-soja na churrasqueira e uma mãe incontrolável vindo infinitas vezes da cozinha, trazendo tanta comida quanto fosse capaz de carregar. Aqui a gente vai da paquera do irmão mais novo ao melhor jeito de preparar carne de Sol. Os avós sabem de tudo e nesse dia o meu quis contar.

– Fia, pra mordida de cobra se usa Mandacaru! Vocês, de São Paulo, nunca viram nem de longe… se faz uma compressa dele. Pra tosse se faz um chá com raiz de Papaconha e tá curado. Aqui vocês dão é dinheiro pra farmácia…

– E o que é bom pro coração, vô?

Ele abaixou os olhos, apoiou uma das mãos no joelho e falou de um jeito que eu queria ter filmado:

– Amô, amô! Amô e tempo. Mas Facheiro também é bom…