Dorezinhas

Dedinho do pé na quina do móvel. Saudades que você não pode matar. Seu filme favorito retirado do catálogo do Netflix. Aquela música que arrebenta o coração tocando na balada. Sentir o perfume dele e olhar pra trás para procurá-lo. Ele não estar. Acordar cedo no domingo. Derrubar o sorvete no chão. Esquecer a janela aberta justo no dia do pior temporal dos últimos quarenta anos. Digitar um número e não ter coragem de completar a ligação.

Esquecer alguma coisa da compra no caixa do mercado. Engolir a seco um “eu amo você“. Perder rascunhos. Encontrar rascunhos. Esquecer que tem prova no dia da prova. Lembrar que você se entregou ” em caixas ” pra alguém. Perder um voo. Não poder se despedir. Ter que se despedir e não querer. Se despedir. Morder a língua. Jurar nunca mais se apaixonar só porque está doendo agora. Pagar a língua.

Desfazer laços. Cortar o dedo no papel sulfite. Perder dinheiro na rua. Saudade. Tomar vacina. Sapato apertado. Apertar o aparelho. Quebrar o fone de ouvido. Ver aquela pessoa com uma outra pessoa. Quebrar sua caneca favorita. Quebrar a cara. Prender o dedo na porta. Reler conversas. Ter que pedir em prece pra esquecer alguém. Não ter nada pra dizer.

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Finitudes I

Entrei no apartamento descarregando a mochila pesada sobre uma das cadeiras que estavam livres. As mãos roxeadas do frio e as bochechas vermelhas do vento cortante, que se fez presente no caminho todo até em casa.  Com mais cuidado, coloquei sobre a mesa uma sacola pequena que trazia nas mãos. Um presente que me dei. Eram duas canecas de um vermelho fosco, bem grossas e com um acabamento muito bem feito (essa fixação em canecas provém de uma outra em cafés e cappuccinos). Mais cedo tive um desentendimento com o vendedor porque ele não quis me vender uma única caneca! Disse pra ele insistentemente que só precisava de uma, e ele retrucava: “é um conjunto!” Parei quando precisei dizer em um tom mais baixo: “eu sou sozinha, só preciso de uma”. Ele deu de ombros. As trouxe, embora contrariada. 

 

Talvez você pense que o amor seja algo que requer grandes e importantíssimas abdicações. Talvez você pense que o amor pede declarações e atos glamorosos. Amor não é evento. Tem mais a ver com fazer chá pra alguém do que descarregar um caminhão de pétalas nessa pessoa. Prefiro quem faz chá. Eu não menti quando disse que você é pra mim como um fenômeno natural incontrolável, que chega de repente, causando estragos imensuráveis, mas não menti também, quando soltei um “amo você ” com a última porção de oxigênio que existia em mim depois daquela conversa. Nada do que eu tenha visto ou conhecido antes pode carregar seu nome ou ser comparado a você.

O que eu quero dizer é que quis te mostrar as pequenas grandes coisas que a gente poderia dividir, desde as quedas de um astro nesse planeta de merda até uns golinhos de chá numa tarde de 10ºC. Eu quis falar que teriam coisas lindas pra você viver comigo, mas a verdade é que ninguém nunca vai saber o que seria de “nós” se ele existisse. E aí, sem um “nós” ficam só as coisas lindas. Por uma semana ou duas – só acho inconveniente que seja no inverno (sério!) – sua falta vai impedir algumas noites de sono (assim como sua presença o fazia também) e eu tenho, por hora, certeza que uma lágrima ou outra vai querer nascer pra brincar de secar no vento.

Vou me ver, por vezes, imersa numa lembrança muito boa, me sentindo fora de órbita só pra cair de repente em mim, ralando as mãos e o joelhos. Só pra chorar você. Só pra mandar você embora e lembrar que mesmo não o tendo, tenho as coisas que me deu – o que inclui umas garrafas vazias de cerveja na estante, uns carinhos impressos na pele e a lembrança do teu cenho franzido em alguns muitos orgasmos. Tenho você me segurando o corpo desfalecido, e o coração dilacerado por não querer essa despedida. Por nem querer se despedir. Inutilmente questionar suas escolhas, como se existisse qualquer coisa no mundo que te fizesse muda-las e não me sentindo suficiente pra isso, querendo ter comprado duas canecas há algumas semanas atrás, pra saber se você aceitaria um convite pra um café…

O amor e outras coisas [+18]

Me lembro de ter dito pra ele que amor não existe, que eu poderia provar com dados e com o quê mais ele quisesse que é tudo feromônio, e que o que ele gosta em mim é cheiro, é só disso que sente falta, mas o sistema nervoso faz a gente achar que não. O sistema nervoso aumenta tudo. Ele não questionou minha afirmação. Continuei dizendo que o coração só deixa impressões cardíacas nas superfícies com as quais tem contato e que ele não esteve com meu coração nas mãos, mas era carregado por mim nas quatro câmaras cardíacas. Ele apenas sorriu.

Me lembro de ir até a cozinha tão lentamente quanto possível, sentindo o chão gelado sob as solas dos meus pés. Eu quis fazer café – habilidade recentemente adquirida – pra mostrar a ele que é bem-vindo aqui nesse 1/4 de casa. E nos meus lençóis. E em mim. O cheiro do café foi tomando conta da casa e então eu ouvi a voz dele dizendo que eu deveria aprender a beber vinho – talvez porque eu tenha bebido mais do que o necessário na noite anterior. Respondi apenas que não tem nada que eu precise aprender por agora, porque já me vi tendo que aprender coisas demais. Depois do café pronto, já tinham coisas que eu poderia dizer.

Agora, com o café pronto, eu já posso dizer que o fato de os seus dedos já me encontrarem muito molhada, mesmo agora, pela manhã, não tem nada a ver com amor. Que o seu gozo em mim, depois da gente, não é amor também. É só expressão do tanto de prazer que posso proporcionar a você. Embora eu quisesse que fosse, embora eu tenha realmente pensado que fosse. Você aqui, aos domingos de manhã adiando a despedida… bem, isso não é amor também, mas o amor tem dessas coisas.  Depois de ter feito amor o tanto de vezes possíveis nesse espaço de tempo que comporta a madrugada eu posso dizer a você, com toda certeza, que a gente é muita coisa. Somos outras coisas.

Mesmo eu não querendo outros olhos olhando os meus, nem outras mãos tocando em mim… a gente ainda não é amor. Porque amor é um gemido mais baixo e um beijo mais doce e uma saudade menos doída. Amor é de dois, porque ninguém faz amor sozinho. 

 

Mil perdões

Por achar tristes todas as músicas de amor e não querer, nunca mais, amores. Nem olhá-los, nem ouvi-los, nem escrever sobre eles. Por não saber sentir o quanto de energia emana de mim pro mundo. Mil perdões por achar que deveria sair ilesa dos outros e não querer nunca ninguém saindo ileso de mim. Mil perdões a mim, eu peço, por me podar os excessos mais lindos e deliciosos porque alguém não soube saboreá-los. Por não ter exagerado em todas as coisas que eu quis.

Quanto tempo pra eu me perdoar por não ter notado o quão grande me tornei e não perceber que o caminho traçado até aqui foi desejado?  Mil perdões por ficar tanto tempo no trabalho e por não aceitar TODOS os convites pra uma cerveja, deliberadamente. Mil perdões por cobrar tanto pudor e sensatez de mim, que sou só alma e sangue vivo. Por pensar duas vezes antes de realizar desejos, matar vontades. Por duvidar que eu posso tocar as estrelas sozinha.

Mil perdões, por agora, ter medo das consequências. Por vez ou outra duvidar de mim, por não respeitar a grandeza dos meus amores e tentar enfiá-los em gavetas minúsculas. Mil perdões, amores, por machucá-los e dizer não a vocês. Por duvidar do poder do tempo de curar corações. Por todos os rascunhos apagados, sem nenhuma chance de revisão – pelo os quais eu faria qualquer coisa para ter de volta. Por achar que as quatro câmaras cardíacas uma hora se cansam e a gente fica menos feliz quando isso acontece. Mil perdões, mas obrigada por voltar.

 

Quase

Hoje eu vou deixar minha pele sentir sua falta. Vou deixar os poros pedirem você. Vou deixar o pensamento livre, sabendo que logo vai trazer uma lembrança sua. Querendo você aqui, eu me permito arder pelo nunca, e sentir a dor de não poder te contar tudo o que consegui realizar nesses meses – que não são coisas grandiosas, é verdade, mas que tenho quase certeza que você gostaria de ouvir. Hoje eu vou deixar a água muito quente do banho quase queimar a pele e o vapor fazer faltar o ar, pra lembrar do teu abraço.

Vou me permitir pensar no quanto eu gostaria de ter seu cheiro nos meus travesseiros. Ter você no meio dos meus travesseiros. E no quanto os fios mais claros da sua barba ficariam lindos expostos a faixa de luz que entra pela janela enquanto amanhece. Quase posso sentir meus dedos passando por eles, te fazendo carinho. Posso quase ouvir você reclamando em gemido da claridade. Posso quase ouvir nossa conversa de vozes mansas e roucas falando qualquer coisa sobre amor e felicidade.

Hoje eu vou me permitir pensar em você, porque não olhar essas lembranças tem me matado um pouquinho por dia… Não vou mudar de música quando começarem a tocar as nossas, nem correr de mim quando lembrar do teu sorriso. Eu apenas vou ficar. Eu vou ficar imóvel, diante de nós dois rindo de algo que eu queria realmente me lembrar, trancados no seu quarto numa tarde de domingo chuvosa. Vou me deixar chorar essa saudade acumulada, pra lavar a alma de você e ser quase eu novamente.

A gente vai passar também

Como os trens pelas estações, como as correntezas que tornam-se, aos poucos, calmaria. Como as tempestades devastadoras, a gente vai passar também. Como as luzes dos carros da cidade passando diante dos meus olhos. Como aquelas luzes que acho lindas, a gente vai passar também. Como o quente do café que esfria e o perfume que nem existe mais na pele, ao fim do dia. Seremos inexistentes. A gente vai se esquecer aos poucos. Nenhuma música vai contar nada de nós e nenhum timbre vai fazer lembrar do outro porque a voz é uma das primeiras coisas que vamos esquecer.

O cheiro do outro vai sumir da memória e aí, os outros cheiros parecidos com o do nosso perfume não vão fazer o coração apertar ou doer (por esse dia aguardo ansiosamente). Nenhuma frase ou filme vão fazer lembrar de nós. Vamos passar por nós mesmos em lembrança – no domingo de manhã ou na quinta à tarde – nunca mais diante um do outro. Nunca mais por perto. E não vai existir nenhum toque que vai fazer lembrar o seu – ou o meu – porque a nossa pele vai esquecer as digitais que as marcou e a temperatura que alcançava enquanto a gente podia se tocar.

Eventualmente vamos querer lembrar um do outro, mas o tempo vai nos levar até um ponto em que nenhum reencontro será possível e nem necessário. E os carros passarão muito mais rápido diante dos nossos olhos, formando feixes de luz estonteantes. Vamos dissipar. Evaporar. Assim como nosso suor que sumiu no espaço. A gente vai se secar um do outro. Os dias mais longos vão nos ajudar. As cervejas mais geladas também. E em pouco tempo nenhuma conversa vai ter espaço pra falar de nós, e os nossos nomes não serão mais ditos.

Você vai esquecer o gosto que meu nome tem na sua boca e depois o gosto do meu beijo. Daí em diante não haverá nada de muito mais importante que precise ser esquecido. E os dias vão passar. Vamos esbarrar em pessoas que não vão querer passar e vão querer olhar as luzes dos carros também. E ouvir outras músicas e tocar nossas peles e dizer nossos nomes. Com outros tons e cheiros. E se não tiver passado, é só aceitar o amor que vier sabendo que a gente vai passar também.

Drama Easter Eggs

No meu penúltimo sonho você não segurava meu rosto em suas mãos para me acalmar e nem se aproximou enquanto a minha pele estava úmida de lágrimas quentes que brotavam incansavelmente de mim. Não sentiu o gosto salgado do meu choro porque não beijou meus olhos, como eu teria feito por você diante do menor sinal de tristeza. Você não beijou meus olhos. Talvez essa seja uma das piores coisas que já me fez. Dizem que sonhos são avisos, mas eu achei ridículo pensar em você esfaqueando minha perna e me deixando sangrar na neve, sozinha. Mas agora é tão claro pra mim: os sonhos são avisos, avisos em pura metáfora.

Não beijar meus olhos foi um milhão de vezes pior do que me dar permissão pra entrar e me guiar pela mão me mostrando todas as coisas que eu mais amo em você, me deixando tocá-las, e depois soltar a minha mão e apagar as luzes. Tão pior do que fazer histórias e lembranças pra saudade me chantagear. Não sei dizer se foi pior do que voltar. E eu deixo você decidir se foi pior do que fazer amor comigo nos seus lençóis, e sorrir, me olhando, enquanto começava a chover e o nosso cheiro impregnava teu quarto ou se foi igualmente cruel – considerando que você estava se divertindo dessa vez, novamente.

No meu último sonho, você articulava friamente palavras que eu não podia entender, e quando eu te perguntava porque falava comigo naquele tom, você sorria. Eu não podia tocar em você e você sorria satisfeito. Fiquei presa num sonho em que eu quase não conseguia respirar, mas também não senti que precisava. Eu nem queria mais. Acordei suando uma febre dolorida que tive durante o sono. Sonhando com você. Tentando te explicar que tem algo cármico, cósmico e infeliz nisso tudo (e porque não dizer orgásmico também? mais da sua parte). Gritando com você -porque tem coisas que não consegui dizer – e segurando um isqueiro azul na mão direita, acendendo-o e apagando-o em um ritmo psicótico, pensando que o fogo é a maneira mais segura de destruir algo, mas que – definitivamente – isso não funciona pra nós.

Eu acendi um cigarro e o levei até a boca, me sentindo naturalmente confortável, como se fizesse isso há anos. Como se não odiasse o cheiro. Inversão de papéis – disse meu psicólogo que já ouviu alguma coisa sobre você, numa sessão ou duas – ou eu me preocupando com o funcionamento de seus pulmões. De certa forma, a longo prazo, talvez sejamos prejudiciais um ao outro. Você à minha saúde e eu à sua integridade física, mesmo que goste das marcas que deixei. Parece que os dois gostam de deixar marcas… eu só na sua pele, você passa um pouco dos limites comigo. Não que você se interesse por isso, mas pra registro: o fogo não funciona pra nós porque somos poeira estrelar.