As pessoas que amamos são feitas de coisas pequenas

Falo por mim, mas penso ter cúmplices por aí que compartilham da minha tese baseada em nada. Ninguém ama o outro por causa do terno importado, ajustado perfeitamente ao corpo. Ama-se o corpo dentro do terno. O desenho das mãos, as pintinhas escondidas, o tom da pele. Ninguém ama alguém porque é gordo ou porque é magro. A gente ama caber no outro e tem coisas humanas que o corpo não comporta. Não tem parâmetro no amor. Você não ama alguém por causa das obras que leu ou das viagens que fez… você ama o que a essência do ser amado fez com essas experiências.

Sabe, ainda bem que ninguém escolhe quem vai causar a taquicardia e a pupila dilatada. O amor é a oportunidade de amar algo que você não escolheu, e não existe a possibilidade disso não ser maravilhoso. Ninguém manda nisso, você não tem escolha. E aí acontece. Aparece aquela mulher que não gosta muito das suas piadas e fuma de vez em quando, e você acaba querendo fazê-la rir, não se importando com o cheiro horrível que fica na roupa dela depois de uns tragos num cigarro barato. E quando você vê ela está com a sua camiseta, passando café pra vocês num domingo de manhã. A mágica aconteceu. É claro que tem um milhão de outras coisas entre um ponto e outro mas, o que quero dizer é: você não a escolheria.

O amor não está nem aí pra suas escolhas. Nem para os seus planos. Ainda bem. Você não deixaria um colega do oitavo ano entrar na sua vida agora. Não faz sentido. Tem o trabalho que exige demais de você, a faculdade que, bem, sabemos o que a faculdade faz com o ser humano. E aí estão vocês, tentando se encaixar um na vida do outro, porque de certa forma acreditam que o esforço pode valer a pena. O amor faz a gente tentar. O amor é a oportunidade. Pode não valer a pena. Pode ter um joelho ralado, um drama mexicano, corações arrasados com as quatro câmaras cardíacas devastadas pós-término. Pode ser uma grande merda. Ou pode ser maravilhoso. Ninguém sabe.

Ás vezes, muitas vezes -sejamos honestos – dá vontade de não apostar as fichas. A gente espera reciprocidade no amor, mas o outro não tem obrigação de amar de volta, desencontros acontecem, desentendimentos também e ok. As pessoas, e nós (que também somos pessoas, mas me refiro aos cúmplices) nos perdemos, erramos. Existem as preferências, mas, o conjunto de coisas que fazem a sua pessoa se transformar na pessoa mais amada do mundo são as coisas minúsculas . Os sons que ele faz, o ritmo da respiração pesada enquanto dorme e você pode fazer cafuné e olhá-lo.

A gente ama as coisas que não passam em telões, o que faz o outro amado são as coisas entre nós. Os dedos se encaixando, o jeito que ela acaricia você enquanto dirige, o jeito que ele dança quando vocês estão sozinhos, ela sussurrando uma parte da música que você ama num inglês (incompreensível) que você acha lindo, o cheiro de vocês dois juntos nos lençóis. E quando pensamos em tudo isso é que podemos perceber a grandiosidade que mora no amor: as pequenas coisas que constroem as pessoas que amamos. Sempre dá pra apostar mais uma ficha.

O melhor da vida – Marcelo Jeneci

Os avós não sabem de nada

O meu avô não sabe nada de signos, mapa astral, Vênus em áries. Não sabe nada sobre feminismo, gordofobia, relacionamento abusivo. Meu avô nem imagina que existe algo como o Tinder (ainda bem!). Não sabe que eu escrevo qualquer coisa nesse blog, muito menos sobre ele. O que ele sabe é que eu amo o feijão branco que ele faz, e o faz pra mim quando vou. E eu sei que ele toma, meio que escondido, una (errei aqui na digitação, voltei pra corrigir, mas quis deixar) dose de cachaça depois do almoço de domingo. Meu avô sabe que fiquei doente aos quatro porque queria uma máquina de sorvete da Eliana. Eu sei que ele comprou. Sei que ele veio de Juazeiro, é arretado, trabalhador e isso é o que preciso saber.

Foi aniversário dele, setenta e quatro anos. Como há muito, muito, muito tempo não fazia, participei desse almoço de família para a comemoração, dessa família que é minha. Sentei ao lado dele. Uma musiquinha ruim que a gente (da nossa família) acha boa tocando no rádio, uma carne-não-de-soja na churrasqueira e uma mãe incontrolável vindo infinitas vezes da cozinha, trazendo tanta comida quanto fosse capaz de carregar. Aqui a gente vai da paquera do irmão mais novo ao melhor jeito de preparar carne de Sol. Os avós sabem de tudo e nesse dia o meu quis contar.

– Fia, pra mordida de cobra se usa Mandacaru! Vocês, de São Paulo, nunca viram nem de longe… se faz uma compressa dele. Pra tosse se faz um chá com raiz de Papaconha e tá curado. Aqui vocês dão é dinheiro pra farmácia…

– E o que é bom pro coração, vô?

Ele abaixou os olhos, apoiou uma das mãos no joelho e falou de um jeito que eu queria ter filmado:

– Amô, amô! Amô e tempo. Mas Facheiro também é bom…

Vai ser bonito um dia?

Eu não queria deixar você ir embora de mim, nem percebi que já estava há milhares de quilômetros distante. Achei que essa playlist era você, então não apaguei, ouvi incansavelmente cada música, querendo que, por isso, você ficasse. Achei que o cheiro na roupa era o seu, mas você não deixa rastros. Você não deixa rastros. Deixa marcas. Tinha um choro que eu não chorei, pensei que era você em mim. Até ontem. Eu não chorei. Achei que ia passar de fase direto, até ontem.

Até ontem, antes de ouvir trinta e três músicas de uma playlist que eu achei que era nossa, eu não tinha chorado. Até ontem, antes de reler cada linha de tudo o que escrevi sobre você, eu não tinha chorado. Até ontem, antes de repassar a gente na mente e perceber que me enganei. Até ontem, antes de olhar uma foto nossa, eu não me atrevi a chorar. Eu não ia deixar você escapar, mas você transbordou em mim e eu não sou de me conter. Então, eu te chorei. Chorei o que você mudou em mim.

Chorei uma saudade que você não quis matar e uns palavrões. Me dei umas broncas e uns carinhos. Eu sorri um sorriso molhado de choro pensando na gente, querendo dizer que eu não arrependo, mas não arrisco de novo. Eu chorei essa hora errada das coisas acontecerem. Chorei meus exageros. Exageradamente. Chorei um arrependimento de ter entregue coisas que eram só minhas e me consolei dizendo pra mim que você fez o mesmo. Esse choro não traz nada de volta, eu sei, mas leva da gente o que não deve mais ficar.

Chorei meu aperto no peito e a frieza nas mãos. Chorei esse mal entendido danado que foi deixar você entrar sem pedir para que ficasse, ainda assim, temendo a despedida (inevitáveis despedidas, tão lindas quanto os encontros). O mau humor e a vontade de não estar. Chorei essa dor insana e desprovida de lógica de sentir falta de algo que nunca está presente, que não é meu. As horinhas de sono perdidas pensando em planos que não foram feitos nem  cogitados por você, o amor que a gente fez.

Adiei o choro todo pra depois do Carnaval, aí ele ficou pra depois do assalto, pra depois das férias. Não coube mais em mim. Chorei essa sua falta de interesse e meu desejo em você, minha vontade de te cuidar e essa merda de signo que você tem. Chorei esse teu mapa astral fodido e a minha mania de me achar muito madura. A saudade da sua voz… eu procurei você aqui pra te ouvir. O pior foi encontrar. É muita coisa sua pra chorar em mim, não sei se você vai caber só nesse choro. Acho que vou precisar de mais. Quanto mais eu choro, menos de você permanece. E como isso pode ser bonito? Ainda não é.

Eu estou torcendo por mim

Eu estou sim, de verdade. Estou torcendo por todos esses planos, pelo sucesso de todas essas rotas. Eu estou torcendo demais por mim. Torço pra não desistir apesar de, às vezes, sentir que os esforços têm sido em vão. Torço pra não desanimar, pra ter alegria sempre, pra continuar acreditando nas coisinhas boas. Torço para que as coisas que machucam não tirem de mim a fé nas pessoas. Tá difícil, mas a gente continua. Eu torço para que os tropeços tornem-se lições e não mágoas. Que as decepções possam ir embora em água corrente, fria… pra não ficar com água suja no coração.

Não é fácil isso de ser feliz. É quase que questão de escolha. Eu juro, não é todo dia que a gente acorda com um sorriso de orelha a orelha querendo dar bom dia pro mundo. Nem pro porteiro, nem pro melhor amigo. Eu torço por mim porque já quis muito que alguém ovacionasse as minhas conquistas, por menores que tenham sido. Mas a verdade é que quase ninguém fica durante o jogo todo, quando a gente olha, a arquibancada está vazia. Aí, é só a gente mesmo. Nós torcendo por nós… não dá pra parar no meio da partida só porque não tem ninguém olhando.

Eu torço para que o amor permaneça em mim, por mais difícil que seja acreditar nele. Eu torço pra nunca aprender a amar as coisas materiais mais do que amo as pessoas com quem tenho cruzado. Eu torço, de verdade, pra sempre fazer o meu trabalho com excelência, causando o mínimo de danos ao outro. De dedinho cruzado por mim, eu peço pra nunca deixar de acreditar que tudo acontece do jeito certo. Torço pra, de vez em quando, ter feito um benzinho pra quem eu amo. Torço por mim, agradecendo por quem permanece.

Quero aprender a lidar com o mal do mundo, sem contaminar, sem entristecer. Torço pra continuar sentindo prazer imenso com o cheiro de café invadindo a casa pela manhã, com o banho de chuva, com cheiro de flor. Torço pra não virar uma pessoa complicada, por tatuagens que doam menos, por coragem na hora do salto, por maturidade pra viver sozinha. Eu estou, honestamente, torcendo por mim dessa vez. Agora o jogo ficou mais sério. Fui torcedora insana de nós dois, mas esse time era ruim… nem mesmo você era a nosso favor, já desejei a vitória do adversário, dos amigos. Mas, hoje, eu sou meu time do coração.

Fevereiro Foi

Fevereiro foi esse tanto de decisões infinitas, necessárias. Esse outro tanto de encerramentos, de finais. Veio fevereiro com um milhão de planos, foi embora com um milhão e meio (são esses dois dias que fazem uma falta danada). Tinha em fevereiro uma saudade pra matar, uma tatuagem pra fazer, férias esperadas, viagem marcada. Foi embora com tatuagem marcada, viagem feita, levando metade das férias e deixando a saudade aqui.

Foi Carnaval, mais em mim do que em fevereiro. Veio cheio de promessas. Tanto glitter, tanto grito, tanta festa que eu esqueci de quem esquece e penso não querer lembrar. Agora que a pele arde um tanto e de verão ficou marcada, queria eu continuar, permanecer. Ser caiçara, fazer festa todo dia em mim, sem me preocupar com a volta… sem querer voltar. Mas fevereiro foi. Não sei quando, mas ainda acostumo com essas coisas lindas que vão embora.

Mais lindo deve ser por isso: são efêmeros. Passageiros. Tanto fevereiro quanto o Carnaval. Tanto os amores regados à glitter quanto a euforia em massa, tanto a alegria dos foliões quanto o verão. Fevereiro não podia ficar, não pode ser Carnaval todo dia. Não pode ser férias pra sempre. Agora sim, tudo pronto pra começar. Porque fevereiro, sozinho, conseguiu ser melhor do que os últimos seis meses.

Quem você ama de olhos fechados?

Quem você ama quando a luz apaga? Quem você ama quando não existe motivo algum pra amar? Quem você sabe desenhar na mente, com detalhes nítidos de cada parte física, e colorir com uma paleta de alma? Quem tem passe livre na sua vida? Carta branca pra ir e voltar e não deixa de ser o que é pra você? Quem tem o gosto que você ama? O cheiro que você ama? Quem tem a pele que você ama tocar e o riso que você ama ouvir, e o corpo que você ama abraçar? De quem é a vida pela qual você é grato? Quem é o ser celeste e infernal que bagunça você? A quem você dá esse direito? A quem você dá esse privilégio?

Quem você deixa ocupar seu lado preferido da cama, comer o último pedaço do bolo que você adora, bagunçar seu cabelo? Quem pode te morder? Pra quem você entrega um pedaço seu, ou se dá por inteiro? De quem é a voz que muda sua expressão de forma inexplicável? Qual é o timbre? De quem é a presença que alegra seu coração e ausência que te desmonta? Por quem você corre esse risco? Quem é a pessoa que te tem? Por quem você fica? Por quem você vai embora? Quem é o seu presente no meio desse caos? Quem é o ponto de paz, de equilíbrio, que te traz de volta o que é bom? Pra quem você volta?

Pra quem você quer contar seu dia? De quem é o corpo que te comporta? Pra quem você se entrega? Pra quem você fica despido de corpo e alma? De quem é o beijo que acende você? Quem te dá desejo? Água na boca? Quem você vê em câmera lenta? Pra quem você se mostra? Por quem você cede? Você faz questão de quem na vida? Por quem você se deixa chorar, entristecer? Quem você sente que precisa de você? Quem você sente? Pra quem você doa seu tempo? Por quem você faz um esforcinho? Por quem você faz sacrifícios? De quem você sente falta, quer notícias? De quem você lembra quando ouve Nando Reis? Em quem você pensa antes de dormir? Quem te desestabiliza? Com quem você quer dividir uma garrafa de vinho, uma gaveta, uma vida? Quem faz você acreditar em destino?

De quem é a roupa que você quer fazer de pijama? De quem são os olhos que você quer beijar e a boca que você quer olhar? De quem você se deixa ser? De quem é o cheiro que fica nos seus lençóis? De quem são as fotos que você quer revelar, para tê-las físicas? Quem faz você acreditar em química? Quem tira o seu sono? Qual é o nome que vem a sua mente antes mesmo de você abrir os olhos, pela manhã? Quem está em todos os seus planos? A quem você dá o poder de mudá-los? Com quem quer andar de mãos dadas? De quem é o hálito que você ama, que quer respirar? Quem te marcou? Pra quem você quer cozinhar, mesmo sem saber? Quem é a saudade que te deixa agoniado?

Com quem você faz amor de olhos fechados, só sentindo? Com quem você conversa por horas? Com quem você pode ficar em silêncio? De quem é o cangote em que você recosta, beijar, cheira? Quem você chama pro banho? A quem você pede pra ficar mais um pouquinho? Com que você pode dormir de conchinha? Quem te arrepia? Quem faz você rir de verdade? Com quem quer dançar? Por quem você torce? Quem você admira? De quem é o seu carinho infinito? De quem são as cargas que você quer carregar? Quem tira você do morno, quem ferve com você? Por quem você reza, ora, pede proteção? De quem você não se cansa nunca? Quem você ama, de olhos fechados, sem precisar dizer nada?

Cuidado

Nos vemos todos os dias e só trocávamos (até aqui) cumprimentos rápidos. Guardava pra mim um julgamento tão pobre dele, e injusto até, que penso em me desculpar (com certeza vou!). Até que um dia, a gente dividiu um tanto de nós em uma conversa que eu repetiria infinitas vezes. Preciso dividir .

(…)

– Faz falta pai e mãe, né? – perguntei sabendo que sim e sabendo o quanto.
– Faz sim, mas eu tenho minha irmã. A gente cuida um do outro.
– Quantos anos ela tem, sua irmã?
– Dezenove. Eu lavo a roupa dela quando ela não tem tempo, cozinho pra ela quando está cansada. Eu me preocupo com ela. Cuidado é preocupação e a gente se preocupa um com o outro.
– Às vezes a gente não precisa de ninguém cuidando de nós, mas a gente quer.
– Todo mundo precisa de um tanto de cuidado. A gente não cresce nunca.

Não tive como argumentar com ele, acenei com a cabeça, concordando. Nos olhamos, os dois com o olhar marejado e aquele nozinho na garganta. Me levantei, coloquei a cadeira no lugar e saí, tocando nas costas dele como se agradecesse a conversa.