Confessional [+18]

Olhando daqui, confesso que acho bonito. Acho lindo. Olhando daqui, as pequenas marcas das minhas unhas na sua pele parecem pintura. Eu em você. Fisicamente, inegavelmente, eu estive aí. Eu em lembrança e digital – como já havia pedido (ou previsto) – provando pra mim mesma que as coisas finitas nos ensinam a amá-las enquanto podemos tê-las, quando damos chances a elas. Provando pra você. Provando você. Comendo você com os olhos e boca, mãos e coxas. Comendo você afetuosamente, amorosamente, violentamente.

Quentes, nós dois, fervendo em suor e vontade, sentindo um ao outro por centímetro e temperatura. Por gemido e silêncio. Nós, em confronto, fazendo marcas, desejando ensandecidamente a vitória do adversário. Mãos e testas, braços, costas e sexos úmidos, quentes, num diálogo imensuravelmente prazeroso (lê-se gostoso pra caralho). E quando digo nós, já não sei se tem muitas outras coisas que precisam ser ditas. Eu, agora, sob os cinquenta tons de laranja desse quarto, arrebatada por um cansaço celestial, posso afirmar que eu deixei marcas lindas em você e que amo tê-las feito. Você pode escolher entre elas, lembranças ou digitais. Gemidos ou arranhões.

Olhando daqui, eu te conto sem dizer uma palavra sequer o quanto me apetece começar amor no chão, com você,  pra terminar na cama – ou sabe-se lá onde. Pra não terminar nunca. Sem dizer nada, eu confesso o quanto o calor que emana de você me acende e o quanto eu anseio/espero/desejo desesperadamente por você em mim. Em cima de mim, dentro de mim, ao me lado. Com a boca, sem enunciar som algum, eu confesso uns desejos bem sacanas, com a língua quente em você; com as mãos, sentindo você, te fazendo marcas; com os olhos – observando atentamente seus orgasmos – eu confesso o quanto me sinto satisfeita agora. Meu corpo todo, a você, é confessional.

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Aos amores que desejo

Venham um de cada vez, não se sobreponham. Não sejam calmos. Vocês sabem (e/ou saberão) que eu não sobrevivo muito tempo à maré baixa. Amores, sejam barulhentos e inquietos. Vocês precisam aguentar – e gostar de aguentar – a minha mala pesadíssima de exageros e me ajudar, eventualmente, a arrumá-la. Decidam entre vocês quem é que vai terminar um filme aos prantos, junto comigo. Soluçando. E rir escandalosamente em qualquer lugar. Todos vocês poderão chorar no meu ombro e sentir muita  raiva de mim durante as nossas brigas. Me deixem mesmo dormir no sofá, emburrada e em silêncio, cientes de que, entre vocês, o que me deixar um lençol nos pés (emburrada, mas não com frio) vai ter mais chances de ficar.

Alguns de vocês serão efêmeros, eu sei. E vamos nos conhecer em bares, na faculdade, em outro estado. Vai ser ótimo. Vocês só precisam gostar de cerveja. E saber que eu gosto muito de andar de chinelos. Vocês vão precisar amar – assim como eu amo – o jeito bagunçado que meu cabelo acorda. Sejam boas pessoas, por favor. Gostem de animais. Não fiquem tristes com os meus lapsos frequentes de memória, não é pessoal. Eu vou querer ouvir todos vocês, vou amar todos vocês. Às vezes vou querer ficar em silêncio. Um de vocês vai precisar me perdoar por alguns vacilos e exageros. Já adianto que perdoo vocês, para podermos seguir em paz e amar aos próximos.

Não se sintam enciumados, talvez vocês não precisem vir, talvez já tenham passado por aqui. Entre todos, tem esse amor pra quem eu vou querer cozinhar. E aí, durante o banho a gente vai conversar sobre felicidade, livros e cervejas. Pintar o apartamento, adotar um cachorro. E a gente vai fazer amor. E esse alguém fica ou volta amanhã, já com saudade, sem medo de dizer. Vou falar sobre vocês. E a gente vai levar uma vida toda pra se conhecer, vamos brigar incontáveis vezes só pra fazer, amores, as pazes. Não vai esperar de mim apenas gentilezas e vai saber lidar com temporais – esse amor especificamente vai querer ficar. E seremos vontades, assumindo os riscos de matá-las, aceitando todas as coisas maravilhosas que a vida tem pra oferecer.

Todas as coisas que eu precisava dizer

Eu quero você mais vezes bagunçando meu cabelo. Quero seu cheiro no maior número possível de roupas minhas, nos meus lençóis, nos móveis e paredes. Em mim. Quero você em todos os históricos, em todas as entrelinhas. Quero conseguir te responder quando você me pergunta o que estou pensando, pra poder dizer em voz alta (ou sussurrando, ao pé do ouvido) que eu me achava mesmo capaz de comportar amor, feito pacote lacrado, mas não cabe mais em mim a vontade de você. E então, eu posso ver você arregalando os olhos e sorrindo em seguida – o sorriso mais lindo do mundo.

Eu posso ver você no escuro porque eu decorei cada detalhe seu e eu posso, também, te fazer os melhores carinhos do mundo e cantar pra você. Posso adivinhar seu humor e temperatura e te contar, orgulhosa, das coisas que sei sobre você. Isso não é sobre saber tudo, mas sobre falar de quem amamos. Se eu conseguisse respirar enquanto te olho, eu responderia todas as coisas que me pergunta. Se eu conseguisse respirar, eu te beijaria um milhão de vezes mais. E faria amor com você três milhões de vezes mais. E olharia os seus olhos em silêncio pelo tempo que me fosse permitido, e os beijaria. E beijaria suas mãos e dedos, ombros e braços. Porque isso é tudo o que posso ter.

Eu ouviria você por horas, por dias. E se eu não pudesse beijar seus olhos e olhar sua boca, eu ouviria você. Eu ouviria você e me veria contente. E sentiria seu hálito e te diria, no escuro, que eu amo. Amo você. E seu hálito. E todas as coisas que te dizem respeito. E se você dissesse que ama qualquer coisa em mim, eu aceitaria um cálculo de oitenta e dois porcento de felicidade e dezoito por cento de medo de você soltar minha mão agora. Mas só se você dissesse. E se ficássemos de mãos dadas – eu diria pra você – que a gente pode tudo junto. Que podemos todas as coisas juntos. E durante o caminho eu explicaria a você como é que colisões planetárias formam novas estrelas…

Inevitável

Beijou um dos meus pés. Senti na pele um quente febril, trinta e nove graus ponto sete, eu diria. Essas extremidades, pés e lábios, se encontrando e conversando. Não reagi. Mantive a respiração regular, chequei mentalmente meus sinais vitais, concluí que ele não notaria a taquicardia com a qual respondi a aproximação. Errei. Mas isso tudo foi depois. Tudo ali era dele. Aquele espaço de (quantos? doze metros quadrados?) doze metros quadrados. Uma das prateleiras de livros, a de cima, tinha uma curvatura por causa do excesso de peso que sustentava. Ciências sociais, economia, política… tudo pesado demais para a prateleira de cima. Deveria dizer pra ele dividir o peso. Queria dizer pra dividir comigo. Tinha um livro meu ali. Um que eu tentei começar quatro vezes e nunca cheguei, ao menos, na página seis. Fiquei feliz por vê-lo pesando também naquela placa de madeira, forçando-a a exalar um cheiro de qualquer coisa no quarto.

Tinha uma colcha grossa e dois travesseiros grandes naquela cama, a qual não fui apresentada antes de pertencer a ela (ás vezes me apaixono pela cama das pessoas). Me ajudou a tirar o tênis, tirou a colcha de cima do colchão e esperou que eu me deitasse em segurança sem derrubar ou quebrar nada  – e eu consegui – , saiu em silêncio, fechando a porta atrás dele. Talvez eu tenha pensado em muitas coisas antes de me entregar ao sono, talvez eu tenha ficado preocupada com o fato de estar de plantão no dia seguinte e já ter garantida, sem dúvida, uma ressaca monstruosa e longa. Um pouquinho de cerveja a mais faz a gente esquecer alguns detalhes das coisas que passam. Algumas risadas, um som relativamente alto para o horário, mas longe, se misturando ao ruído da minha respiração pesada. A cara afundada no travesseiro, cheirando displicentemente o cheiro dele. Um cheiro de shampoo comum misturado com cheiro de pele. Dormi sem ver. Por quanto tempo? Que horas eram quando vim? Que horas você voltou? Por que voltou?

Oi, sou eu. posso deitar aqui com você? Já estava deitado, respirando bem perto de mim, dizendo isso com a voz embriagada e um hálito de pasta de dente que não escondia por completo o consumo de cerveja, o recente e exagerado consumo de cerveja, ao pé do ouvido. Não tenho certeza de ter respondido. Queria ter dito que sim, mas o sono e o álcool me deixaram consentir apenas acenando com a cabeça, sem abrir os olhos. Talvez eu tenha feito qualquer som de aprovação. Você já estava ali. A sua boca já encostava na pele do meu pescoço, sua barba já fazia carinho em mim. Virei pra te olhar no escuro e dizer que a gente não ia continuar. Virei e te vi. Eu te vi no escuro, me encarando com dois olhos brilhando muito, dizendo pra mim que era inevitável. Você disse que “nós dois juntos” era algo inevitável, acho que sem saber o caos que sobrevém das coisas que são inevitáveis. Não foi a primeira conversa que tivemos enquanto bêbados, mas você deve saber que foi uma boa conversa, levando em consideração o longo período de tempo em que os nossos corpos falaram por nós.

Estivemos em todas as partes da cama, pela qual eu já estava apaixonada. Beijou um dos meus pés. Senti na pele um quente febril, trinta e nove graus ponto sete, eu diria. Essas extremidades, pés e lábios, se encontrando e conversando. Não reagi. Mantive a respiração regular, chequei mentalmente meus sinais vitais, concluí que ele não notaria a taquicardia com a qual respondi a aproximação. Ele notou. Acho que a gente se amou- gosto de falar assim, mas pode ser mentira. Em volta do que a boca beijava, a barba fazia carinho. Ouvi algo como sua boca é muito gostosa, ou talvez eu tenha pensado isso e não consegui falar. Talvez eu tenha dito isso. Talvez eu tenha respondido a sua também. Bom, eu não sei. A gente poderia ter colocado zero pra tocar, sempre achamos que é a música perfeita pra fazer amor. Ou sexo. Seria demais pra mim. Você sabe sobre o meu problema com expectativas… se a gente começar, isso vai dar merda eu disse isso, com certeza. Você riu. Nós rimos.

Gosto de pensar que a gente é bom junto por causa do nosso signo igual, ou porque a gente é de esquerda e amigos (ou éramos? agora não sei mais) e isso facilita(va) as coisas. Tudo bem se a memória for só eu deitada em você, com a mão na sua barba, ouvindo seu coração bater bem rápido e te perguntando se você quer que eu te sirva água na sua própria casa, porque as outras perguntas são constrangedoras demais pra mim agora. Terminamos igual a todos os outros: abraçados, trocando carinhos enquanto o sol que entrava nas frestas da janela deixava a gente se ver, em silêncio, agora afastando-se porque tudo foi muito bom mas não pode continuar. Parece que as coisas boas param de ser boas se continuam. Quando vão poder ser melhores? Exageramos tanto na bebida quanto na intensidade das coisas feitas e ditas. Era sabido que o que começa em beijo entre nós não pode terminar bem (ou mal, depende do ponto de vista).

Incapacidades

Você nem imagina o quanto eu corri pra tentar alcançar você. Não imagina o quanto eu me estiquei pra ficar do teu tamanho, pra caber certo em ti. Eu te liguei pra contar, pra falar dessas minhas incapacidades. Queria uma conversa longa e séria pra tentar me explicar, repetir coisas que já te disse. Diria que me excedo mesmo nos afetos, mas você não soube aproveitar. Eu te liguei porque a gente nem conversa quando você vem, tinha que ser de longe. Você nunca atende. Você nunca entende nada.

Eu liguei pra avisar que a gente já parou com esse jogo em que só você sabe as regras. Se você me atendesse, perguntaria se já posso gastar todas as minhas energias pra esquecer isso tudo que nem tem nome. Se posso passar muitas horas a mais no trabalho, na academia, no cinema, nos bares por aí. Queria saber se você se ofende com o meu silêncio absoluto quando alguém diz o seu nome ou por eu não gostar mais dele. Nem de ouvir, nem de dizer. Perguntaria se eu já posso parar de correr agora, porque já sinto o cansaço das pernas, mais ainda do coração. Eu continuaria, mas não posso.

Você sabe que eu acredito… não, você não sabe. Fomos colocados nesse ringue que é a vida, um de frente pro outro, e não acredito que nenhum dos dois tenha escolhido isso. Se eu pudesse perguntar, gostaria, honestamente, de saber se os meus vãos esforços podem ser cessados e eu, assim, parar de esperar qualquer coisa de você que não seja o mesmo carinho que ainda sinto pelas coisas que lembro de nós. Gostaria de saber se posso parar de esperar.

Queria garantias. Passagens compradas. Queria a data do embarque, sem pretensão de despedida. Então, não haveriam mais desculpas… apenas fatos. Muito provavelmente eu não saberia te perguntar nenhuma das coisas sobre as quais eu falo. Eu nunca te dou direito de resposta mesmo. Respondi tudo, eu mesma. Antes de desligar, faria, gentilmente, um pedido: gostaria que não lutássemos mais. Que não houvessem choques ou colisões. Que não nos machucássemos. Diria que foi uma honra dividir o ringue com você. Se você atendesse.

Idiossincrasias

Hoje eu não disse seu nome uma vez sequer. Em voz alta. Mas briguei com você – em pensamento – por essa sua mania horrorosa de marcar território. Como você fez com a vaga na frente do prédio, me fazendo enxergar a gente ali toda vez que a olho. E com minha cama. E com o chão do meu quarto. E, bem, com o meu coração. Briguei porque você me desmonta e, olha, não é legal desmontar pessoas. Falei alto com você, te fazendo cara feia e dizendo que você é sim esquecível, mas nada indolor.

Pedi, com carinho, pra você não rir da minha demora nas trocas de acorde desse violão surrado. Te prometi melhora. Eu não fiz por mal. Apostei comigo que foi por este único motivo que não quis ficar. Então, a gente chegou aqui. Nesse ponto em que eu decorei você de um jeito que não sei explicar e lembro de te olhar e ver a coisa mais linda do mundo. Nesse ponto específico em que enxergo você brilhando. Mas quem acredita nisso? Nem eu acredito mais.

Eu amei suas idiossincrasias, como ajustar o óculos ao rosto, e também o fato de ser dono de uma constelação. E os seus olhos, porque são iguais a todos os outros, mas são seus. E o jeito como sinto você encostar em mim, me fazendo rir ou arrepiar. E as outras coisas que não gosto de contar, pra fingir que são exclusivamente minhas. Vai me entender. Vai te entender. A gente chegou nesse ponto em que uso palavras como idiossincrasia pra falar de você. Em vez de simplesmente dizer que eu não consigo te olhar, porque seus olhos ardem demais em mim, assim como a falta que faz.

Crônicas de apartamento [+18]

Atendi a porta de toalha. O cabelo muito molhado, grudado na nuca e as gotas geladas – restos do banho recém tomado – escorrendo pelas pernas, de encontro ao piso. Ele me observou por alguns segundos, parado na minha frente com as mãos no bolso. Convidei pra entrar. A porta fechou atrás dele. Primeiro me perguntei como ele tinha conseguido subir – o interfone não tocou – , depois achei educado oferecer algo pra beber enquanto me vestia. Não tive muito tempo.

Veio com a mão na minha coxa, de baixo para cima, deslizando firmemente até que a toalha não cobrisse quase nada. Eu imóvel, feito caça diante do predador, apenas cedi. O coração na boca. Segurou minha bunda com as duas mãos, me puxando muito forte, até os nossos corpos se encontrarem. Meus braços já estavam em volta dele. As minhas mãos geladas no pescoço quente, quase febril, causavam arrepios no meu visitante. Fez um caminho delicioso de beijos do meu colo até atrás da orelha. Que saudade, foi a única coisa que disse, sussurrando, desde que entrou. Eu só consegui responder: eu também.

Senti os dedos dele se perdendo nos meus cabelos ainda molhados, a mão firme conduzindo minha cabeça até sua boca. Eu ganhei uns beijos famintos. A língua dele preenchia por inteiro a minha boca, bem devagar, fazendo-a parecer muito pequena. Fui alimentada dele, me alimentei da sua fome. Desabotoei sua camisa com um tanto de pressa, uma urgência ofegante. Mas, quando já não havia nada sobre a pele dele, eu apenas encostei meu rosto em seu colo, sentindo o cheiro que emanava daquela pele como se fosse a última porção de oxigênio no planeta.

Senti os pelos encostando na ponta do meu nariz, encontrando com meus cílios. Os senti com as mãos. Passei a unha bem devagar pelas costas largas, mordi seu pescoço. As mãos dele matando a saudade de mim enquanto eu, displicentemente, enfiava a mão por dentro da calça jeans, já aberta, e pegava pra mim o que eu queria. Não havia mais camisa, jeans ou toalha . Apenas eu, ajoelhada diante dele no meio da sala, muito molhada (não mais do banho). As expressões dele oscilavam entre manter os olhos fixos nos meus e fechá-los, virando a cabeça pra cima, os lábios semicerrados, as mãos acariciando meu rosto.

Sei dizer que o caminho entre a sala e o quarto pareceu muito extenso para um apartamento naquele momento. Por cima dele, puxei os cabelos pra trás enquanto sentia um dedo dele em minha boca, os outros por trás da orelha, como se eu precisasse ser segurada. Os meus joelhos no sofá. E os barulhos… os nossos barulhos contidos. Passou os braços em volta da minha cintura, me apertou tão forte que soltei um tanto de ar e um gemido entre dentes, o queixo descansando na sua clavícula. Passei a mão pelo rosto dele com os olhos fechados. Os dele também estavam. Senti algumas gotas do nosso suor se misturando… O porteiro lembrou de mim, ele me contou, sem que eu precisasse perguntar.